Você vai num concerto qualquer, ou numa peça, ou nessas coisas meio artísticas com gente de echarpe palestina e óculos grandes. E daí o negócio é tão bom, a menina canta tão bem, o sujeito do violão tem tanto talento, que dá uma vontade enorme de protestar - pois, convenhamos, echarpe palestina deveria atrair ações secretas de agentes do Mossad.
Já aprendi que protestar é inútil e que basta esperar um pouquinho. Basta esperar o discurso entusiasmado do sujeito do violão, “ISSO É CULTURA, GENTE, UM DOS PONTOS DE FUGA CONTRA O CAPITALISMO-ESQUIZOFRENIA DE QUE FALAVA DELEUZE ANTES DE PULAR DA JANELA EM BUSCA DE SEU ÚLTIMO GOLE DE AR”.
Esses discursos são os freios de arrumação do universo. Enquanto a platéia aplaude, consigo sempre levantar da cadeira filosoficamente realizado.
Preciso encontrar algum uso para todos esses livros sobre a governo Busha.
Maimônides, pra mim, é marca de almôndega.
Provincianismo: “só quem é daqui nos entende”.Multiculturalismo: “só quem é de lá os entende”.Inteligência: alguma coisa in between
Se queres conhecer o homem e o mundo,Não desvias de ti o olhar profundo.Mas foge de te ouvir e de te ver,Se a ti mesmo tu queres conhecer.
(o Mário Quintana diz, num livrinho meio blog, que o trecho é do Antero de Quental)
Saneamento Básico agrada sempre. Desacelera do meio para o fim, mas Jorge Furtado continua o melhor texto do cinema brasileiro. Fernanda Torres está impagável. Wagner Moura sobra (a dancinha é coisa fina). Paulo José impressiona com a ternura possível de seus gestos contidos. Camila Pitanga, com aquele quadril enorme e ao som de Billie Holiday, faz sonhar coisas boas.
Acordar e, logo depois do café-da-manhã, comprar flores na feirinha da rua ao lado. Flores que enfeitarão a casa, em vasos na sala e no quarto. Algum talento delicado para os arranjos. Cuidado de mãe com as folhas, dois olhares de lado, um sorriso mais simples. O olhar quase triste de tão feliz.