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Arquivo da Categoria ‘Filosofia’

Dos elogios da preguiça

1, novembro, 2009 marcioguilherme Sem comentários

“Porque pensamos bem de nós mesmos, mas não esperamos ser capazes de algum dia fazer um esboço de um quadro de Rafael ou a cena de um drama de Shakespeare, persuadimo-nos de que a capacidade para isso é algo sobremaneira maravilhoso, um acaso muito raro ou, se temos ainda sentimento religioso, uma graça dos céus. É assim que nossa vaidade, nosso amor-próprio, favorece o culto ao gênio: pois só quando é pensado como algo distante de nós, como um miraculum, o gênio não fere (mesmo Goethe, o homem sem inveja, chamava Shakespeare de sua estrela mais longínqua; o que nos faz lembrar aquele verso: “as estrelas, não as desejamos”). Mas, não considerando estes sussurros de nossa vaidade, a atividade do gênio não parece de modo algum essencialmente distinta da atividade do inventor mecânico, do sábio em astronomia ou história, do mestre na tática militar. Todas essas atividades se esclarecem quando imaginamos indivíduos cujo pensamento atua numa só direção, que tudo utilizam como matéria-prima, que observam com zelo a sua vida interior e a dos outros, que em toda a parte enxergam modelos e estímulos, que jamais se cansam de combinar os meios de que dispõem. Também o gênio não faz outra coisa senão aprender antes a assentar pedras e depois construir, sempre buscando matéria-prima e sempre trabalhando. Toda atividade humana é assombrosamente complexa, não só a do gênio: mas nenhuma é um “milagre”. – De onde vem então a crença de que só no artista, no orador e no filósofo existe gênio? de que só eles têm “intuição” (com o que lhes atribuímos uma espécie de lente maravilhosa, com a qual vêem diretamente a “essência”!). Claramente, as pessoas falam de gênio apenas quando os efeitos do grande intelecto lhes agradam muito e também não desejam sentir inveja. Chamar alguém de “divino” significa dizer: “aqui não precisamos competir”. E além disso: tudo o que está vindo a ser é subestimado. Mas na obra do artista não se pode notar como ela veio a ser; esta é a vantagem dele, pois quando podemos presenciar o devir ficamos algo frios. A arte consumada da expressão rejeita todo pensamento sobre o devir; ela se impõe tiranicamente como perfeição atual. Por isso os artistas da expressão são vistos eminentemente como geniais, mas não os homens de ciência. Na verdade, aquela apreciação e esta subestimação não passam de uma infantilidade da razão.”

(N. do B.: mas bigodón, e Mozart?)

Friedrich Nietzsche,Humano, Demasiado Humano (Aforismo 162, pág. 124 da edição da Cia. das Letras)

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Olavo de Carvalho

Trecho do “Seminário de Filosofia”, transmitido diretamente dos EUA

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Aforismos desencapados e perspectivismo

11, janeiro, 2006 marcioguilherme 3 comentários

“O perspectivismo (…), como o relativismo, é uma doutrina que só é possível para aqueles que se consideram de fora, descompromissados, ou melhor, atores que encarnam uma série sucessiva de papéis temporários. De seu ponto de vista, todas as concepções da verdade, exceto a mais ínfima, parecem ter sido desacreditadas. E, do ponto de vista da racionalidade da pesquisa constituída pela tradição, fica claro que tais pessoas estão, por sua própria posição, excluídas da possibilidade de possuir qualquer conceito de verdade adequado para uma pesquisa racional sistemática. Portanto, a sua não é tanto uma conclusão sobre a verdade, quanto uma exclusão dela, e, dessa forma, do debate racional.

“Nietzsche compreendeu isso muito bem. O perspectivista não pode empenhar-se numa argumentação dialética com Sócrates, pois esse caminho trairia o que, do nosso ponto de vista, seria um envolvimento com uma tradição de pesquisa racional, e, do ponto de vista de Nietzsche, a sujeição à tirania da razão. Não se deve discutir com Sócrates, devemos ridicularizá-lo por sua feiúra e maus modos. Tal ridicularização, como resposta à dialética, é imposta nos parágrafos aforísticos de Götzen-Dammerung [O Crepúsculo dos Ídolos]. E o uso do aforismo é instrutivo nele mesmo. Um aforismo não é um argumento. Gilles Deleuze o chama de “um jogo de forças” (ver “Pensée Nômade”, Nietzsche aujord’hui, Paris, 1973), algo através do qual energia é transmitida, e não através do qual conclusões são alcançadas.”

Alasdair MacIntyre,“Justiça de Quem? Qual Racionalidade?”, pág. 395. (Ed. Edições Loyola)

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O “Tudo é a Água” de Tales

20, dezembro, 2005 marcioguilherme 3 comentários

“Quando Tales diz: “Tudo é a água”, o homem estremece e se ergue do tatear e rastejar vermiformes das ciências isoladas, pressente a solução última das coisas e vence, com esse pressentimento, o acanhamento dos graus inferiores do conhecimento. O filósofo busca ressoar em si mesmo o clangor total do mundo e, de si mesmo, expô-lo em conceitos; enquanto é contemplativo como o artista plástico, o homem de ciência, enquanto se sente dilatar-se até a dimensão do macrocosmo, conserva a lucidez para considerar-se friamente como o reflexo em outros corpos, fala a partir destes e, contudo, sabe projetar essa transformação para o exterior, em versos escritos. O que é o verso para o poeta, aqui, é para o filósofo o pensar dialético: é deste que ele lança mão para fixar-se em seu enfeitiçamento, para petrificá-lo. E assim como, para o dramaturgo, palavra e verso são apenas o balbucio em uma língua estrangeira, para dizer o que nela viveu e contemplou e que, diretamente, só poderia anunciar pelos gestos e pela música, assim expressão daquela intuição filosófica profunda pela dialética e pela reflexão científica é, decerto, por um lado, o único meio de comunicar o contemplado, mas um meio raquítico, no fundo uma transposição metafórica, totalmente infiel, em um esfera e língua diferentes. Assim contemplou Tales a unidade de tudo o que é: e quando quis comunicar-se, falou da água!”

F. W. Nietzsche,“A Filosofia na Época Trágica dos Gregos”, parag. 3, citado na pág. 46 do volume “Pré-Socráticos” da coleção “Pensadores”

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A Filosofia Nasce do Espanto (Repost)

Sócrates:- Amado, creio teres freqüentado, quando criança, esses eventos a que costumam designar “feiras de filhotes”.

Platão:- Sim, mestre; estive em muitas delas quando menino.

Sócrates:- E tens na memória o que vistes por lá?

Platão:- Sim, sim; como não o teria? – bezerros, cãezinhos de língua azul, pintinhos – lembro-me inclusive de ter comprado alguns desses últimos com minha mesada, muito embora tenha ouvido algumas reprimendas de meu pai.

Sócrates:- Não te lembras de tudo, então.

Platão:- Mas como, mestre?, – não entendo o que queres dizer.

Sócrates:- Tu te esquecestes do principal, amado, da razão fundamental pela qual estamos aqui, da questão central sobre a qual repousa toda a filosofia.

Platão:- Não compreendo.

Sócrates:- Amado, ouve então as palavras de minha boca: a filosofia existe para explicar aqueles pôneis. Vê, pois, o mistério: por que pôneis em feiras de filhotes?

Platão:- Oh, mestre!, é acima do meu entendimento!

Sócrates:- Acima do de todos nós, amado. Pois se entenderes o absurdo do fenômeno, compreenderás que, no mundo dos cavalos, as feiras de filhotes exibiriam anões enjaulados. E este é o verdadeiro problema que estamos tentando resolver aqui, e do qual dependem todos os outros.

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